• |
  • |
  • |

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Através da fechadura - parte 1/3


A partir do momento que você passa a escutar a madrugada, em seu âmago, que você considerava mais néscio, a voz, crônica, suada e encolerizada, um tanto crepitada aos longes, vós surtais.
Foi assim que aprendi sobre a loucura, mas não foi bem assim que a senti a primeira vez.

A primeira nós nunca esquecemos,não é mesmo?


Albert Hickham estava dando aula de história, com aquela gravatinha que eu achava meio gay e com os tênis, - como sempre, bem polidos e engraxados, - na hora em que cheguei. Vivenciei um dos melhores momentos da nossa amizade naquele instante; quando ele disse que Alexandre, o grande, era tão ridículo para tentar combater um exército que ele sabia que ia perder, que morreu, como havia previsto também de acordo com algumas tortas estórias, e também, que se parecia comigo; disse isso enquanto eu estava-lhe mostrando o dedo do meio através da vidraça quadricular, às costas dos garotos que, possivelmente, não tinham mais que doze anos; os dois dedos do meio se transmutaram em um espaldar de mãos que se remexiam, fazendo-me, um monstro nada aterrorizante para todos. E como era de se esperar;
Todos riram.

Lembro-me bem de sairmos para tomar café em algum quarteirão adiante da Spring West Ville comidas e, com uma área reservada, com um telão grande exibindo a novela da tarde, e um logo que dizia que fumantes podiam fumar na p* que P*, boutique iniciante, ele fez um comentário a parte:
- Quem seria maluco de colocar uma boutique junto a um restaurante? - disse ele, rindo, com sua voz mais sussurrada e recuante. Seu velho típico jeito de ser.
- Eu não sei. Mas... O dono, o sr. Hud, parece um cara em busca de dinheiro a todo instante. Mais do que sua própria saúde. - Eu disse.
- É aquele cara que estava no hospital com uma mancha roxa nos raios-x e precisava de dinheiro para cobrir todos os custos da cirurgia?
- Não. Esse é Thomas. Seu irmão a propósito.
- Deve ser de família. E você não tem nada pra dizer? - Sua voz tornou a recuar e ficar suave e solícita. Sempre conseguia fazer você lembrar de algo quando queria e deixava sempre a desejar, onde o assunto se tornava vago e não-propício.
- O que você quer dizer? - Perguntei.
- Nada. Apenas... À memória estagnada. - E ele tinha a filosofia da composição nos olhos e fala.
Eu tinha me lembrado. Tão rápido quanto um Flash;produzido por um farol e sendo visualizado de um barco a nove quilômetros de distância.
- A loja de artefatos.
- Isso. A loja. E os artefatos em seguida.
às vezes ele parecia ter usado alguma coisa ilícita. Sua voz ficava tão serena e, conquanto, não estivesse zangado parecia absorto da própria vida. Cruzamos o McDonald e a loja de vinil vizinha, pela rua Bangla até a rua Zimmermann. Paramos dois ou três quarteirões depois, dez minutos após, com um café em cada mão, tomamos o rumo da Parade & Curio's life. Artefatos e melanina, piscando em rosa e alterando para branco, quando o Sr. Jay air decidia gastar um pouco da energia, que defendia, tão rigorosamente. Durante a noite era incrível como a loja parecia estar inativa, quando ele, não acendia as luzes de dentro da loja e ficava iluminado apenas pela luz de uma tv de nove polegadas em cima do balcão. Chegada às escondidas, ele assemelhava-se a um fantoche inócuo.
Obstinemo-nos à porta, ansiosos.
- Você acha que ele conseguiu consertar? - Perguntou meu amigo, sua voz parecia impregnada de algumas das caixas de som que estavam anunciando Picles com Batatinha e molhos, a duas quadras dali.
- Eu acho que sim. Ele é muito bom. - Respondi.
- Mas... Levamos a caixa para nove pessoas, das mais renomadas do estado de Ohio e Mississípi, ninguém deu jeito. Por que razão ele conseguiria?
Não respondi. Nem mesmo eu sabia. A razão estava congestionada e soprada, de um lado a outro da barriga até a mente, e vice-versa, prontamente, com inúmeras dúvidas e um certo aperitivo inconsistente e cruel de monotonia.
O Sr. Jay Air estava altercando com alguém em um telefone tão antigo quanto ele, que possivelmente beirava os noventa com algum tipo de magia, cujo acreditávamos na época. E compreenda, hoje, acreditamos muito mais.
Quando nos fitou, chegar pelo o balcão, arrastando os dois dedos por sobre, com dois copos de café nas mãos e com aqueles olhares incertos e famintos por respostas, disse algo no telefone com extrema rapidez. Bateu o pé e sacudiu a cabeça, tentando se livrar de um inseto enorme, ao que parecia, em cerimônia, gesticulou para o fundo da loja. Óbvio que sabíamos o que significava. Se fosse a primeira vez, e tivéssemos entrado primeiro, e ele fechando as portas da loja com controle remoto e acionando o fumê automático pelo mesmo, teríamos medo. Acharíamos que nos estupraria ou nos mataria, ou nos estupraria e mataria em seguida. Tínhamos dezessete anos e, Albert, estava no segundo mês de professor voluntário para o ensino fundamental. E eu, era apenas um garoto aficionado por histórias hostis da segunda guerra mundial e modelitos de aviões que partiam desde o mesmo, até os mais recentes e comerciais. Até tinha coisas instaladas no meu computador, simuladores e um rádio com fones de ouvido, que passava sempre a mesma informação a respeito dos comandos a se seguir a partir das ordens da torre. Era uma voz gravada, obviamente, e a torre não existia, contundentemente óbvio, mas eram ambas, reconfortantes e disparavam-me a uma criatividade imensa.
Jay Air, trouxe algo dentro de um pacote, pelos contornos, e tamanhos exatos, sabíamos do que se tratava: A caixa.
- Não abram antes de chegar em casa e fazer todo o ritual. Está tudo nos lugares, mas não deu pra ajeitar tudo exatamente.
Albert me puxou pelo casaco. Puxou de novo. E mais uma vez, enquanto Jay Air falava, e, ao fitá-lo e observar seus olhos se contorcendo em naturalidade óbvia, entendi. Ele tinha uma pergunta, mas não iria fazê-la. Dependia de mim. Tinha medo de Jay.
- O que isso significa? - Albert me fitou mais dócil, era isso. Ou bem próximo.
Ele tossiu, e tossiu, como se não tivesse fim. E depois de beber uma água proposta pelo bebedor ao seu lado, disse, em pausas;
- Vocês, não entendem, - Cof*Cof* - essa caixa, não pode ser consertada na íntegra. Imagine abrir uma porta - Cof*Cof* - e imagine o outro lado dela - Cof*Cof* - dando para um lugar totalmente normal. E agora, depois de mexer em suas configurações, essa porta... - Cof*Cof* e mais água. - abrindo para um lugar totalmente novo. Ela funciona à base de emoções, eu acho. Então, testei-a uma vez, e desejo nunca mais voltar àquele lugar de novo. Me dá calafrios só de pensar. Então - cof* - me desculpem. Mas é impossível voltar com todos aqueles parâmetros. Mas tudo o que reclamaram, do impulso, da imagem e sons, não irá incomodá-los mais. Entretanto - cof - aquele mundo, acredito que foi perdido, para sempre.
Aquilo me gerou uma flechada, tão pontuda e confrangedora, que me deu vontade de ter voltado atrás, penhorado um pouco mais, e aceitar aquela proposta de dois mil pela caixa, com um cartão fidelidade de garantia (que pela excentricidade do coroa, era um prêmio e tanto) e voltar pra casa com o bolso cheio. Olhei para Albert.
Faltava um passo para irromper em lágrimas. Os olhos tinha se tornado vidrantes e aguados. Mas sem necessidade do fluxo saltar fora. Pelo menos ainda não.
- Garotos... - disse Jay, segurando pelos nossos ombros. Eu com uma caixa pesada nas mãos e os joelhos um pouco flexionados para aguentar o peso, e Albert, com um braço segurando o bíceps do outro, de ombros encolhidos e cabeça baixa. Sendo coberto parcialmente pela cabeleira. -... Vocês são novos. Podem fazer algo bom e diferente, um tanto inusitado. Sei que deram duro naquele lugar. Pensem comigo... - Estávamos chegando a entrada principal e os vidros começaram a clarear-se, me dando uma leve sensação de cegueira. - Quantos jovem possuem uma coisa igual a essa? Ou melhor, quantos dos seus amigos tem conhecimento sobre misticismo e necromancia, como vocês, se quiserem?
Fazíamos apenas barulhos de {hum, aham} para mostrar que entendíamos.
- Vão pra casa - continuou - explorem cavernas, ou os tempos antigos, até mesmo os modernos futurísticos de vinte anos a frente. Tudo bem?
A mesma onomatopeia audível para apontar compreensão.
Andamos até em casa.

Dividíamos um apartamento, dois quartos e dois banheiros, duas belas suítes e uma cozinha pequena, afinal, nada é perfeito. Não estava bom pra gente. Estava simplesmente fantástico. Dois jovens, com salários próprios (eu ganhava mesada do meu pai, e isso era um salário, não era?) e uma casa só deles. Não. Não bebíamos e muito menos trazíamos mulheres pra lá. Éramos do tipo que garotas queriam distância. Fazíamos "a média louca" dos tempos modernos. E o que posso fazer diante disso? Afinal, nada de hoje me cativa. Prisões telefônicas, alçapões de mentalidades juvenis e pretensões, nada artísticas, a respeito do mundo atual. Temos tantas referências e nada fazemos. Isso é uma droga. Não concorda comigo? Vejo meus filhos nisso, lembrando que quando tinha essa idade, eu corria pela praia, chutava latas, machucava o meu pé, e sorria, enquanto o dedão sangrava (mas não passava aquele maldito anti-séptico que ardia como o fogo de Satã), disfarçando a dor. Prisões letais de tecnologia construtiva (e destrutiva ao mesmo modo) que te absorvem e te esquecem, se você fracassar e desistir de aprender mais e avançar com ela. Para tudo se tem um aparato. Isso é inútil. Ajuda. Mas também atrapalha. ARHGGGGGGG! Sei que não faz sentido. Entretanto é isso.

Nossos pais estavam não esperando. Minha mãe, pelo menos, o outro estivera durante anos em uma viagem que parecia infinita e que o deixava invisível pra mim. O dinheiro parecia ter sido mandado por um tio distante que me odiava, tinha um bilhete, dizendo, "Feliz natal e se cuide, papai te ama" e por isso parecia mais um parente do que alguém próximo. A mãe e pai de Albert. Por um momento, acredito eu, pensamos sobre estarmos muito encrencados e que, iríamos ser presos. Mas não. Quando os três abriram um sorriso, em fila indiana se dissipando, vimos o bolo e lembrei. Aniversário meu. Caramba. Eu esqueci. Senti vontade de socar Albert, mas, estava segurando uma caixa. Repassei-a para ele, e ele a guardou, indo em direção ao corredor do meu quarto. Iria estacionar aquilo embaixo da minha cama. Era onde sempre ficava. Voltou. Bateram parabéns de uma maneira alegre, e saíram tão rapidamente, levando metade do bolo em vasilhames de plásticos que eram nossos e estavam quase extintos naquela casa, que, diante da situação, fiquei triste.
- Eles te fodem e vão embora, não é? - Disse Albert. Nos olhamos e sorrimos como se não tivéssemos traseiros.
Foi a penúltima vez que o vi sorrir.

14 de novembro de 2005 -


Estávamos com cerca de dezenove anos cada um. Era nossa terceira tentativa de abrir aquela caixa. Fizemos todos os rituais. A cada vez, da primeira a segunda, Albert parecia mais pálido, porém mais sério, e um tanto... Não sei... Vacilante ou Funesto? Talvez fosse uma dessas, a palavra certa na época.
Lembro-me de ter dito que não o queria participando mais daquilo. Que estava longe do seu alcance, conseguir quaisquer êxitos ali. Podia acabar morrendo.
- Você não me quer aqui, seu merdinha? Não me quer por que você quer todo o mundo pra si, não é? Mas eu tenho minha parte nisso. Investimos metade de nossas forças, não foi? Sim, foi. E não vamos acabar com essa irmandade agora, não é? - dizia isso enquanto suas mãos tremiam e seus olhos estavam querendo saltar da caixa. Segurei imediatamente e o mostrei onde estava o seu erro, e seu paroxismo. E ele... Bem... Disse que era ausência de sono. Que não dormia a três dias. Faculdade com trabalhos em excesso e ele com pouco ânimo. Entretanto nunca vi algo assim, que não fosse em um filme de terror ou história contada e desenhada por Alan Moore em alguns de seus quadrinhos.
Eu acredito que levaria um soco naquele momento. E foi quando ocorreu.
A luz se acendeu a caixa; o portal.
- E você não acreditava, não é? - ironizou Al.
Aquela exata luz, que convergia e, ao mesmo tempo, em que há uma menor no seu centro, convergia, era o que chamávamos de portal cavernoso. Hoje em dia eu chamo de maldição tênue. Iluminou nossos olhos e mostrou-nos a chave. Não a mesma, prateada e com traços azuis celestes, que daria para nosso mundo anterior, mas sim, uma flamejante e esverdeada, com tons cítricos misturados as nebulosidades de luzes autofágicas. Eu disse naquele exato momento para não entrar. Além do show canibalista que as luminosidades produzidas pela chave, que pendia sozinha, em meio ao ar, eu senti algo. Senti que aquilo não era sinônimo de coisa boa.
- Vê? É o paraíso. - disse Al. Seus olhos brilhavam, e receavam alguma catatonia, intrínseca além da própria estrutura. Afora; sua barba mal feita, as bolsas que se formavam abaixo dos olhos e a pele avermelhada, irritada, ele parecia um menino. Aqueles que ganharam o brinquedo sonhado no natal.
Levemente sua mão foi deslanchando do braço em direção a chave, dava alguns tiques no caminho, entretanto continuava. Eu disse não. Eu...
- Não Al, não. Não é algo legal...
me lembro de ter dito.
Juro que aquela merda sorriu. Não tinha dentárias. Não possuía formas bucais. Mas sorriu. Quando o bebê encontra o pai, e abre os braços, sorrindo - aquela chave encontra seu fiel portador, feliz. Aquela luz se tornou a mão, que se articulou pela de Al e, como simbiose, que a apertou, estagnou-se à ele.
Seus olhos crepitais, gradativamente, de uma maneira idosamente louca, se virou para mim.
- O que você acha que ela abre? - perguntou com sua voz somada.
Eu percebi. Não era ele. mas;
- O que disse?
Sua voz se tornou singular novamente, e me aparentou loucura, da minha parte.
- A chave. O que você acha que ela abre?
Boa pergunta. Realmente, o que ela deve abrir?
As sensações. Não era assim que os mundos se mostravam?
A caixa foi auto multando-se, em novas dobraduras, girando sob uma das oito pontas dos quatro lados de seu cubo, e como sempre, exibiu seu painel. Era cinza por completo, sem vida, não tinha inscrições e muito menos cerimônias decorrentes. Apenas, o lugar para por a chave. Uma fechadura cinza um pouco mais laminada.
{O que será que ela abre?}
[sua voz foi expelida em duplicidade]
"Ela funciona à base das emoções, eu acho"
Eu acho.
A chave.
(... e desejo nunca mais voltar àquele lugar de novo)
- O que você sente, Al?
Suas mãos abanavam no mesmo lugar e compulsivamente, depois, fechando-se em um punho.
- Poder.

O dia não tinha começado bem aos arredores daquela cidade. Perquiria um crepúsculo, através das nuvens rosadas de início do Sol pela manhã, a Lua, continuava ali, entremeada às populações gasosas e logo abaixo, alguns graus, da grande esfera amarelo-indo-ao-tom-alaranjado.
Demorou para mim acordar, e obviamente, não assisti àquele show de cores.
Quando acordei. Me deparei com uma simples visão inquisitiva;
(onde está você, Albert?)
Se os estofados estavam debruçados de ponta cabeça, e a tv da sala quebrada, o lustre que pertencia àquele imóvel desde muito antes de morarmos lá, estava espatifado e esmigalhado como um pão velho em cima do fogão...
Então é simples...
Onde está Albert?
Louco misterioso, uma vítima da charada cruel, o morto-vivo vive dentro de cada um de nós... Eu descobri como, às vezes, damos nossos sonhos como perdidos. Pois cada homem que assina o contrato da vida, estipula seu crescimento através dos sonhos. E quando não os tem. Morre. Se torna um morto-vivo, vítima dos tempos. Albert não estava em um ou outro casos. Não sei definir bem. Até hoje eu não sei como explicar; àquela nebulosa de branco e preto, atravessada pelos seus olhos, me mostravam uma fechadura, pelos seus globos escancarados, eu vi o que se passava ali dentro.
Eu tive coragem de olhar através da fechadura -


- Meu Deus, Albert. Que mer* você fez a si?


 

Rust Hill Copyright © 2010 | Designed by: compartidisimo